sábado, março 07, 2009

A menina e o Arcebispo

(Foto: Alexandro Auler/JC Imagem/AE)
O caso que está na boca do povo é o da menina pernambucana de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto de 23 anos e acabou engravidando de gêmeos. Como disse Juliana Sardinha no Diário de Bordo, por si só essa notícia já é estarrecedora. O pior veio depois.

Como se não bastasse o sofrimento da família, o arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, tornou pública a excomungação de todos os envolvidos, desde os familiares até os médicos que trataram da menina. O único "salvo" do tal ato "honroso" do bom samaritano da Igreja foi o padrasto da menina, o acusado de ter cometido o estupro.

O ato de excomungar alguém é o termo usado pelo Cristianismo para a proibição na participação dos sacramentos. Ou seja, o indivíduo perde o direito da comunhão. É a maior pena que um fiel pode receber. Ele perde todo o direito referente ao recebimento dos santos sacramentos e de realizar alguns atos eclesiásticos. O Vaticano acatou o pedido do arcebispo brasileiro por estar dentro das normas previstas no Código do Direito Canônico. Esse escrito originalmente em 1917 por Bento XV e, revisto e promulgado em 1983 pelo João Paulo II. Mais arcáico impossível! (Oie! estamos em 2009!!)

É um dire
ito do Sobrinho ter praticado tal ato, mas ao abrir a boca e vazar isso para imprensa, não mediu o tamanho das consequências que viriam junto. Toda sociedade já estava abalada com o crime bárbaro - que por sinal é horrível em qualquer idade, imagine então com uma menina de apenas 9 anos - e ainda teríamos que aguentar calados (?) esse ato absurdo de excomungação coletiva?

É uma coisa óbvia que o corpinho de uma criança não está preparado para uma gestação. Muito menos de gêmeos. O útero aos 9 anos ainda não teve sua formação completada e os riscos de complicações dur
ante a gestação ou parto seriam imensos. Com certeza, além de perder os bebes perderíamos também a pequena mãe. A que preço? Somente para satisfazer o prazer arcáico da Igreja Apostólica Romana? Que isso! Voltamos para o período das trevas, onde a lei que prevalecia era da "santa" Inquisição?

Não falo nem a favor nem contra o aborto. Meu maior sonho é ser mãe e sei como isso é difícil e algumas vezes frustantes. Mas acho que um dia (bate na madeira) acontecesse o que ocorreu com a menina comigo, eu abortaria sim. Quero carregar em meu ventre um fruto do amor e não do ódio.

A menina que se submeteu a um aborto superv
isionado (e concedido pela Justiça) no último dia 4, no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), em Recife, já recebeu alta e se encontra bem, fisicamente. Ela aguarda retorno para fazer uma curetagem para a retirada do material placentário da cavidade uterina. Agora mentalmente, ela não irá se recuperar tão cedo, isso se ela se recuperar.

O "santo" padrasto, absolvido pela Igreja, foi preso no dia no dia 3 de março. Em depoimento o "santinho" ainda afirmou ter violentado também a
irmã da menina que tem apenas 14 anos, e ainda é portadora de necessidades especiais (PNE). Pelo menos a nossa Justiça não foi tão cega quanto a divina.

Fico indignada como uma Igreja que perseguiu, assassi
nou e estuprou tantos outros por tantos séculos, ainda acha que hoje em dia tem o direito de decidir que tem o direito ou não de receber um santo sacramento.

Sobrinho fez comparações do ocorrido com o Holocausto. Chega ser engraçado, sendo que existem alguns "santos padres" que até hoje afirmam que o Holocausto nunca existiu (
), e que tudo não passou de um exagero da mídia. Durante o lançamento da Campanha da Fraternidade (?) 2009 o arcebispo citou que o crime cometido pelo padrasto foi bem menor que o aborto. "Ele cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão. Foi um pecado gravíssimo, mas, mais grave do que isso sabe o que é? O aborto! Eliminar uma vida inocente", enfatizou Sobrinho na entrevista coletiva.

O arcebispo renunciou ao cargo por conta da idade. E já vai tarde! (Oh saudade de Dom Helder Câmara) Para fechar em grande estilo o "santo homem" além de excomungar toda a família da menina violentada, ainda ameaçou os foliões nordestinos de excomunhão caso utilizassem as camisinhas e as "pílulas do dia seguinte" distribuídas gratuitamente pela Prefeitura do Recife no carnaval.

Assim como a Juliana Sardinha, não vim aqui para ferir nenhuma religião. Até porque eu não tenho nenhuma. Sou de família católica e umbandista. Passei por todos os sacramentos da Igreja Católica, desde o batismo, primeira comunhão e crisma. Também fui abençoada num centro de Umbanda e mais tarde na vida adulta, por escolha minha, batizei-me na Igreja de Mórmons. Então estou bem "assegurada" de intervenções divinas.

Hoje optei por não ter nenhuma delas. Tenho fé principalmente em mim e no que EU posso fazer para mudar o mundo. Respeito o direito e a fé de cada um, contanto que não venham dar uma de fanáticos para o meu lado. Orgulho-me de ser agnóstica, e de que acreditar a existência ou não de um poder superior nunca será resolvida por ninguém. Essa é uma busca pessoal e absoluta de cada indivíduo. Ninguém tem a verdade absoluta, mas todos temos um pequeno pedaço dela. Vamos aprender a nos unir e somá-la e não separar, julgar e dividir!

2 comentários

natan disse...

precisa comentar? isso eh um fato que da medo do pais em que vivemos. sinceramente tenho medo do lugar onde meus filhos vão crescer, da sociedade que meus filhos vão encontrar, sim tenho medo!
o que nos falta, ao contrario do que muitos pensam, não eh questinar... eh por os questionamentos em pratica. o que não eh facil e naum traz rapidos resultados...

http://natanfusco.weebly.com/

Ana Magal disse...

É Natan. Acho que todos nós ficamos preocupados com o futuro dos nossos futuros filhos. O mundo do jeito que está, já está complicado para nós. Ou mudamos agora, ou não terá nada para mudarmos.

Obrigada pela visita e pelo comentário!

@anamagal

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