sábado, junho 20, 2009

Mau profissional existe em qualquer lugar...

Nessa onda de sobre e desce de diploma fomos obrigados a ouvir, e ler, dos senhores ministros em Brasília, que o Jornalismo não lida com a vida das pessoas. Que um mau jornalista não faz diferença nenhuma. Isso só deixou claro que esses senhores não sabem o que é a profissão de jornalista.

Como já apresentado anos atrás no Caso Escola Base, um profissional ruim pode acabar com a vida de várias pessoas, infelizmente. Aqui não é discussão de quem é o certo ou errado, mas sim demonstrar que, como qualquer outro profissional, o jornalista que não investiga os fatos e vai atrás da verdade, seja ele diplomado ou não, pode acabar com muitas vidas, física e moralmente falando.

Um caso que chegou em minhas mãos a pouco tempo foi o relato dos rapazes do Coletivo Luta Armada (RJ), que é uma das organizações que está empenhado nacionalmente na construção do Movimento Hip Hop Militante Quilombo Brasil. Eles atuam principalmente nas comunidades carentes espalhadas no país ensino arte (grafitte) e música. Onde um jornalista, incompetente, pode-se assim dizer, interpretou um dos grafittes do grupo como uma afronta a sociedade levando seus leitores a crer que era fruto de marginais e não de artistas.

No dia 9 de abril desse ano, o jornal O Dia, noticiou uma operação policial ocorrida na em comunidades de Costa Barros. Ao invés de se ater na batida policial, deram destaque a imagem que, óbvio, chama a atenção de qualquer um que passe: um grafitte do grupo Coletivo Luta Armada, tratando-o como uma apologia ao crime. O título da matéria trata do desenho como "Grafite com afronta às autoridades".

O graffiti, de autoria do grupo de artistas da comunidade, traz a imagem de um rapaz de touca ninja, sem camisa, descalço e com duas pistolas nas mãos, ao lado da inscrição "Projeto Primeiro Emprego" (imagem ao lado). Desenho esse foi feito em tom de ironia à falta de perspectiva que acomete boa parte da juventude favelada. A maior parte desta é obrigada a entrar para criminalidade por falta de opção na educação e no mercado de trabalho.

Antes mesmo que esses jovens possam ter contato com o mercado formal de trabalho, a primeira coisa que eles aprendem onde vivem é que para viver tem que se marginalizar. Isso é a realidade cruel deles. E não podemos dizer que eles estejam mentindo, porque não estão.

Com uma manchete sensacionalista e completamente tendenciosa, o jornal induziu não só os leitores, como outros órgãos jornalísticos, e por consequência, grande parte da população que soube do fato de forma distorcida.

"Nós, do Coletivo de Hip-Hop LUTARMADA, autores da obra em questão, temos como marca principal a prática da arte como uma forma de provocar a reflexão sobre a realidade imposta aos viventes das favelas e periferias. Como se não bastasse toda a opressão vivida por sermos pretas/os, pobres, moradores e moradoras dessas comunidades precarizadas, agora a nossa arte também vem sendo atingida nesse processo que criminaliza as vítimas da pobreza. A arte como crônica social sempre existiu e não dá sinais de extinção, porém o tratamento que ela recebe pode ir de um extremo ao oposto dependendo da sua origem. Rapazes brancos de classe média como os das bandas Titãs e Capital Inicial nunca tiveram problemas com a policia por cantarem suas músicas 'Polícia' e 'Veraneio Vascaína', respectivamente. Já no nosso caso, não fossem as militantes dos movimentos sociais, teríamos sido presos".
Trecho retirado do blog Movimento de Hip Hop Organizado do Maranhão QUILOMBO URBANO


Os representantes do grupo entraram em contato com o autor da reportagem (que no site do jornal não consta o nome de seu responsável), eles responderam que se o "tal grafitte estivesse na praia de Copacabana seria entendido como uma denúncia, mas como foi pintado em uma comunidade 'violenta' era para ser interpretado como apologia ao crime".

Os rapazes do Coletivo Hip-Hop Luta Armada disse ainda que se o jornal não tivesse colocado uma matéria de forma indutiva ele até teriam deixado de lado, mas ao agredir o pensamento deles e arte deles, associando-os a criminosos eles não poderiam deixar passar. Os artistas do grafitte têm como principal objetivo despertar a reflexão e o senso crítico da população, propondo de modo pacífico uma reação e possível organização da sociedade em relação aos problemas que nos afligem dia-a-dia, principalmente nas grandes capitais brasileiras.

Eles afirmaram saber que estão agredindo as autoridades. E qual seria o propósito real de um grafitte senão ativar essa agressão. Por mais que seja uma arte agressiva, elas mostram nossa realidade. E digo, uma coisa concordo com os rapazes do Coletivo Hip-Hop Luta Armada: para que colocar na praia de Copacabana se os problemas reais da comunidade estão bem distante de lá?

Agredir as autoridades, caro jornalista do Jornal O Dia? Claro. Como os rapazes mesmos disseram, a nossa realidade agride muito mais e nossos governantes não fazem nada para mudar esse cenário. Os rapazes estavam criando arte e não empunhando armas para os policiais... Ah peralá né gente!!! Tudo tem limite.

E depois tenho que ouvir os senhores ministros dizendo que o jornalismo não faz mal a vida humana... Faça-me o favor senhor Gilmar Mendes ¬¬

2 comentários

tutorunopar disse...

Pois é Aninha, só quem labuta no dia-a-dia consegue medir a dimensão das coisas, ELES só tomarão conhecimento dos fatos, através dos jornalistas. Por isso para ELES, realmente um mau jornalista não faz diferença nenhuma.
E quem não lida com as vida das pessoas são ELES, que passam todo o tempo em suas salas com ar condicionado, enquanto a sociedade perece lá fora.

Ana Magal disse...

Com certeza Zé... se eles lidassem com a vida das pessoas não cometeriam tantos erros, não teriam salários superfaturados, muitos menos roubariam tanto, pq a consciência com certeza iria pesar.

Ah! Esqueci, eles não tem consciência, como podem lamentar algo de errado que fizeram. Nós os profissionais, não importa a área, é que deixamos a vida humana em risco e não eles né? ¬¬

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