terça-feira, abril 06, 2010

Meu Rio de Janeiro virou, literalmente, 'Rio de Abril'

Mais de 90 mortos, muitos feridos, pessoas ainda desaparecidas e danos materiais por toda o Estado Fluminense. Ontem, dia 05 de abril, o Rio de Janeiro foi dormir, ou tentar, em cima do caos total. Por volta das 17h horas dessa segunda-feira uma chuva forte começou a cair em várias cidades, na capital e no interior também. Quando a noite foi começando os bolsos de água pelas ruas da capital carioca foram causando um caos interminável na vida da população.

A chuva piorou por volta das 22h e toda cidade parou literalmente. Ruas alagadas, carros submersos, barrancos despencando e levando milhares de famílias junto. No interior o cenário não foi diferente. A região dos lagos está, também, em estado de alerta. Niterói e regiões em completo cenário de guerra. Baixada em alerta total e a capital simplesmente paralisada.



Quando a madrugada chegou o twitter virou a principal fonte de notícia sobre as chuvas. Os telejornais não estavam mais passando e os sites da CET-Rio (empresa responsável pelas câmeras da cidade) ficou fora do ar por excesso de visitantes. O deputado Fernando Gabeira foi um dos que mais ajudou a todos os internautas a saber o que estava ocorrendo. Twittando de minuto a minuto sobre os pontos de alagamento, dando RT em mensagens de moradores de vários locais e ajudando a entrar em contato com as autoridades, ele e mais um monte de anônimos trocavam mensagens desesperadas para tentar ajudar, um pouco, aqueles que ficaram perdidos no caminho de volta para casa.

Por volta das 4h da madrugada a cidade estava um caos total. Parecia cena de filme catástrofe. Pessoas ilhadas em lojas, postos de gasolina, sacadas, topo dos carros mais altos e em cima dos ônibus. Aqueles que se aventuraram atravessar as ruas alagadas caíram em bueiros e se machuram. Os barrancos das encostas, nas favelas da capital e de municípios do interior começaram a desabar. Pessoas começaram a morrer. O Rio, a tal cidade maravilhosa, escolhida para ser sede das Olimpíadas estava debaixo d'água.


A lagoa Rodrigo de Freitas fez uma gigante piscina em torno das ruas que a cerca. A maré das praias subiu além do limite. Ruas, avenidas, vias expressas foram interditadas. E tudo isso justamente na hora em que muitos estavam saindo de casa para mais um dia de trabalho. Mas lembrando, muitos outros ainda nem tinham conseguido chegar em casa no dia anterior. E entrei em pânico. Pânico, porque meu pai sai de casa justamente por volta das 4h30 e pega a principal via expressa do Rio, Av. Brasil. Peguei o celular e tentei ligar para ele: nada. Totalmente desligado. Tentei por várias horas.

Só consegui falar com ele por volta das 7h da manhã. Tudo já estava parado. Ele pegou tudo engarrafado de Campo Grande, onde moramos, até a altura do Caju, onde ele trabalha. Ele fez malabarismo no trânsito tentando cortar por dentro de vários bairros. Eu, assistia atônita pela TV tudo alagando, carros parados, pessoas gritando e acenando paras as câmeras de televisão nos helicópteros. Meu pai abandonou o carro em São Cristóvão e foi a pé até o outro lado da Av. Brasil. De lá, conseguiu carona com um caminhão que o levou até a porta do Cemitério São Francisco Xavier, onde ele trabalha. Ficou lá preso até às 14h, pois a rua não tem escoamento de esgoto e toda água que entra da chuva volta lá para dentro.


Esse cenários no Cemitério do Caju existem há anos. Desde que a Prefeitura fez uma obra de pavimentação na rua Monsenhor Manuel Gomes (isso eu ainda trabalhava lá também), e simplesmente fecharam a única saída de escoamento de esgoto e águas pluviais que saem do portão principal do cemitério. Resultando: chove, enche, a água tentar sair, encontrar um paredão subterrâneo nas galerias e volta vazando por todos os ralos e alagando toda área das capelas onde estão os familiares.

Eu, acordava até quase o meio-dia, assistia a TV e tentava saber como estavam as coisas. Meu pai ligou dizendo que chegou bem lá. Só foram três funcionários do escritório trabalhar e um grupo de 10 coveiros, que moram nas comunidades em torno do cemitério. O restante não conseguiu chegar. A tarde, com a chuva diminuindo outros funcionários conseguiram chegar, ele voltou a pé para São Cristóvão e pegou o carro que tinham abandonado por lá e voltou para a casa dele. Conclusão: ficou horas e horas preso no engarrafamento de volta, e mais horas tirando lama pura de dentro do carro. Amanhã, não sabe se irá trabalhar. A chuva continua a cair no Rio. Não para.


Nos telejornais o prefeito, Eduardo Paes, e o governador, Sérgio Cabral, suspenderam as aulas de escolhas e universidades públicas. Pediram que as particulares fizessem o mesmo, a maior parte delas acatou. O centro do Rio não teve praticamente nenhum funcionamento comercial. Ninguém conseguiu chegar para trabalhar. O prefeito pediu que ninguém saísse de casa e aqueles que moram em áreas de risco de desmoronamento que saíssem e procurassem abrigo em local seguro.

O Rio de Janeiro parou! E de acordo com a meteorologia as chuvas continuarão até quinta-feira. A última grande chuva que lembro desse porte foi em 1996, quando a Praça da Bandeira, ficou submersa, e antes dessa eu era pequena, acho que foi em 1988, se não me engano. Tudo parou. Isso se repetiu.


Nesse momento culpa é o que menos importa. Mas também bom senso é o mais importante. A Praça da Bandeira é um local que enche em todas as chuvas, há mais de 60 anos. Porque nunca ninguém faz nada para modificar esse cenário? Afinal essa é uma via principal de acesso ao Centro da Cidade. E os rios de dinheiro gastos nas 'supostas' dragagens da Lagoa Rodrigo de Freitas? Dinheiro e mais dinheiro, que dizem investir, mas quando as chuvas caem o escoamento é inviável. Tudo retorna.

Mas isso também não é só culpa dos governos. Porque não é obrigatório no Rio de Janeiro todos os moradores terem cesto suspensos para colocar seus lixos domésticos? Não, jogam pelas calçadas. E os funcionários da Comlurb, quem ao invés de recolheram porta a porta, mesmo em ruas que possuem cestos, fazem questão de fazer montes de lixos nas esquinas dizendo 'facilitar' a coleta. Facilitar para quem? As chuvas caíram justamente na hora da 'suposta' coleta de lixo, justamente quando todos os sacos estavam amontoados em pilhas gigantescas para 'facilitar' o serviço deles.


O Rio virou literalmente cena do filme 2012, aquele, lembra, que todos criticaram que fazia uma imagem ruim da cidade? Só faltou o coitado do Cristo Redentor resolver nadar nas águas cariocas também. Tudo virou um rio só. Clichê, mas verdade, o Rio de Janeiro, virou um verdadeiro Rio de Abril.

Por favor, eu peço. Se você não precisar sair de casa amanhã: NÃO SAIA. As chuvas não vão parar tão cedo. O trânsito está impossível de locomoção. Ainda há lixo e ratos pelas ruas. Os que moram em comunidades: POR FAVOR PAREM DE CONSTRUIR CASAS IRREGULARES NAS ENCOSTAS. O risco é total de vocês. Será que vocês não tem noção do quanto isso é perigoso? Depois todos aparecem na televisão dizendo que o governo que não ajuda. Mas vocês, povo carioca, também não colaboram não é?

Para mais fotos do caos carioca acesse aqui.

Fotos: Portal G1


1 Comentário

Douglas Costa disse...

É um absurdo só. Sempre digo as pessoas não joguem lixo na rua, coloca na lixeira, sou criticado por tal atitude, depois vem a chuva inunda tudo de quem é a culpa? Lógico que eles não vão se culpar.
Porém os governantes, ao invés de ficar criando leis infundadas, deveria planejar uma cidade melhor, com escoamento de águas etc.
Lembrei do filme quando liguei a tv, e lógico fiquei pensando em ti, é bom saber que você está longe do caos

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