quinta-feira, março 15, 2012

Desconecte-se e veja o que tem lá fora


Nesses últimos dias tenho pensado muito sobre o assunto, sempre polêmico, da vida on/off que vivemos pelo menos na última década. Depois de vários acontecimentos na vida pessoal e de ler alguns artigos de amigos em blogs e sites de referência, comecei a perceber o quanto está nos fazendo falta ver o que existe lá fora.

Mas aí você me pergunta: lá fora onde? Em qualquer lugar. Qual foi a última vez que você saiu de casa simplesmente para “curtir” o nada? Hoje vivemos a rotina da conexão quase 24 horas por dia. Aqueles que trabalham com Comunicação, como eu, por exemplo, acabam fazendo da vida lá fora uma extensão do que ocorre dentro.

Hoje a maior parte dos profissionais utilizam a tecnologia para trabalhar, por isso, quando saem de seus escritórios (seja ele dentro ou fora de casa) acabam realizando atividades voltadas somente para aquela rotina diária. Em outros momentos saímos para fazer coisas das obrigações da vida adulta, como pagar contas, ir ao médico, levar os filhos para escola etc. Mas esquecemos de sair simplesmente para não fazer nada.

Isso mesmo: nada. É claro que é bom uma vez ou outra rir com os amigos, sair com o namorado ou marido, levar as crianças ao parque entre outras coisas mais. Mas o problema é que atualmente acabamos levando o mundo on para onde que vamos. Desligamos os computadores físicos da casa e do escritório e nos conectamos em aparelhos mobile em qualquer lugar.

Fico pensando muitas vezes que o ser humano de hoje fica com “medo” de não saber de nada. Recebemos tantas notícias e informação por segundo depois da invenção da internet que quando ficamos poucos minutos sem o acesso a essa ambiente parece que o nosso mundo vai acabar se não soubermos quem é o novo Trend Topics do twitter ou o assunto mais “curtido” do facebook.


Ontem a noite o meu querido amigo Nick Ellis compartilhou o link de um blog que eu não conhecia ainda (Sim, não conhecia! Diferente do que algumas pessoas pensam, não é porque sou blogueira há quase 13 anos que sou obrigada a conhecer cada pessoa da blogosfera), o Cativeiro Imaginário, da escritora e roteirista, Patrícia Corso. Me deliciando com o texto escrito, “Alguma Suécia”, comecei a perceber que exatamente aquilo relatado por ela que estamos vivendo: um excesso de tudo ou nada.

A web abriu a porta da oportunidade para os mais tímidos se soltarem, não só profissionalmente, como na vida social/pessoal. Contudo, o excesso de exposição virou rotina nas redes sociais. Hoje todo mundo quer ter seu “minuto de fama”, e aqueles que não querem são criticados. O mundo virtual entrou em uma onda do tipo “ou você pensa como eu ou está contra mim”.

Lembrou-me esses fatos aquelas cenas ocorridas na minha época de colégio quando você era severamente punido ou excluído, muitas vezes ridicularizados simplesmente porque não pensava, agia ou era igual aos grupos pré-formados dentro da sociedade educacional. Se você não estava dentro dos padrões de beleza era classificada como feia e todos que “seguiam” os líderes daquele grupo diriam “amém” mesmo que discordasse daquilo, afinal ele estava seguindo uma tendência e não poderia correr o risco de ser colocado para fora do grupo.

Isso seguiu o curso da vida através dos tempos por cada um de nós. Na vida adulta o trabalho separou as pessoas por categorias cada vez mais exclusoras. Se você era parente de alguém da empresa, automaticamente não poderia ser competente. Se você era inteligente, naturalmente não poderia ser bonito. E você era classificado como bonito, certamente achavam que você era burro e saiu com o chefe para conseguir o cargo. Ou seja, você foi se moldando a cada grupo a cada tempo em sua vida.

No modo ON da vida atual, começamos a querer determinar o que é bom para cada pessoa. Alguns iniciaram um tipo de “culto” (isso mesmo, cegueira total) ao “politicamente correto”. Com isso, se você não concordar com o pensam será classificado e jogado aos leões das redes sociais para te destruírem enquanto os líderes desses grupos sentam comendo pipocas e riem, de quê não sei, como se estivesse em uma sessão de cinema.

E tem grupo para todo tipo de gosto. "Os defensores excessivos de animai", "os religiosos fanáticos", "os pudicos irritantes", "os liberais em excesso", "os políticos demagogos", "os 'sou inteligente e você é burro'”, "os defensores dos tipos físicos" e por aí vai. E ai de você discordar de algum deles. Para essas pessoas você tem que ser tão extremista quanto ou então não é o suficiente para dizer que é.

Vejamos um exemplo pessoal, eu sou gorda, gosto de falar sobre o tema, mas não vivo em torno dele. Mas aí de mim ficar contra a turma obsessiva pela defensoria pública da categoria “Plus Size” espalhadas pelas redes. Eu amo animais, mas odeio ver imagens de animais mutilados rondando minha timeline, mas e eu critico logo jogam pedra dizendo que eu não tenho coração. Ou seja, ou eu faço como eles ou estou errada.

Com isso, vamos esquecendo que existe um mundo lá fora. Que existem outras pessoas, outros pensamentos, outros sentimentos. Nos tornamos parte de uma máquina e estamos nos robotizando de tal maneira que ter pensamento e personalidade próprias é sinal de defeito. Se falamos uma frase no facebook da vida sobre relacionamento amoroso de forma mais liberal automaticamente todos acham que somos libertinos e que orgias fazem parte de nossa vida. Já se levamos uma vida pessoal mais recatada somos antissociais e fazem questão de nos excluir dos eventos que organizam.


Todos estão vivendo um extremo do mundo on/off. Não sabemos mais lidar com as pessoas. Colocamos todos num pedestal como se fossem mártires em estado de perfeição que quando conhecemos essa pessoa em seu cotidiano nos assustamos por ela ser comum como outra qualquer. Não é porque falamos que “conhecemos” alguém na web que isso significa que sejamos “amigos de infância” dela, mas também não é motivo para criar um cavalo de batalha e achar que estamos mentindo só porque não temos intimidade.

Minha mãe um dia comentou durante o jantar uma coisa interessante sobre esse assunto de “conhecer alguém famoso”. Ela disse “conheci o presidente Lula naquela passeata na Cinelândia no meu aniversário de 50 anos. Tirei foto. Ele falou comigo, apertou minha mão. Sim, eu posso falar que conheço ele, mas isso não quer dizer que eu seja íntima dele. Se forem perguntar para ele quem é a Sandra, ele não fará a mínima ideia de que eu existo. Isso não significa que eu menti ao dizer que eu conheci o presidente Lula”.

Esse comentário da minha me levou a crer que hoje em dia colocamos muita gente na vida ON em um patamar de celebridade que não existe na verdade. E quando saímos do on para o off sentimos na pele que o cotidiano é falho, e por consequência vem a decepção por aquela pessoa não ser quem nos idealizamos, mas isso não quer dizer que seja uma mentira. Eu, por exemplo, conheço a Rosana Hermann, falo com ela no twitter, blogs, e-mails, facebook etc, mas nunca nos vimos pessoalmente, portanto, ela não é amiga íntima, mas isso não quer dizer que seja mentira se eu falar que a conheço, porque sim, eu a conheço.

E nesse vai e vem de pessoas comuns, webcelebridades, semicelebridades e celebridades, vamos construindo um caminho de rotas cegas onde não sabemos bem para onde estamos indo. Construímos ao longo da última década um “Fantástico Mundo de Bob” particular e temos medo de sair e encarar o mundo lá fora.

Ao assistir o vídeo Address Is Approximate, compartilhado no Facebook esses dias, me fez pensar sobre o tema sobre “o que está lá fora”. Estamos perdendo tempo nos trancando em um mundo fantasioso esquecendo que existem pessoas, negócios, oportunidades, sonhos e muito mais nos esperando apenas pegar a chave, abrir a porta e se aventurar em descobrir um novo mundo, com novos olhos. O meu querido amigo Antenor Thomé, lá do Blog Mural do Antena, fez uma ótima reflexão sobre esse tema.

Está na hora de paramos de viver em um mundo imaginário onde achamos que todos os blogueiros do mundo são artistas de Hollywood, que fazer revoluções de sofá vai modificar o pensamento de gerações, que só porque ser nerd está na moda não quer dizer que todos eles terão sucesso na vida e por fim, parem de achar que todos pensam como você.

Somos únicos, temos vontade própria, qualidades, defeitos, desejos, problemas e se você não aceitar que o mundo é feito de diversidade, desculpe, você não está pronto para viver realmente no mundo lá fora, então, continue aí olhando para a tela do seu computador e sonhando com coisas que você nunca irá alcançar porque teve e ir lá fora por alguns minutos e olhar para o nada só porque teve vontade.
O mundo só vai mudar quando você começar a mudar o seu próprio mundo...

1 Comentário

Sybylla disse...

Excelente texto.

Não é à toa que dizem que ser famoso na internet é como ser rico no banco imobiliário. Existem futilidades na rede que pegam as pessoas desprevenidas e elas adotam aquilo como uma verdade.

O mundo off realmente tem maravilhas a serem descobertas e aproveitadas. Fica a dica pra mim tbm.

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