quinta-feira, março 08, 2012

Quando uma visita de rotina ao oftalmologista tira o seu chão


Faz tempo que não escrevo aqui no blog. Os problemas pessoais, a mudança de casa, fim de um relacionamento e o dia-a-dia do trabalho fizeram com que meu começo de ano ficasse simplesmente fora de rumo. No meio desse barco de confusões resolvi colocar os exames médicos em dia. Afinal, checar como vai a saúde não faz mal a ninguém.

Querendo voltar a realizar atividades físicas marquei consulta com o cardiologista para pegar o atestado médico e embarcando no marca-marca já fui agendando a ida ao endócrino para verificar como anda o nível dos hormônios da tireoide e a ginecologista para as rotinas semestrais que toda mulher deve ter.

Nesse vai e vem, lembrei que meus óculos já não estavam mais fazendo efeito desejado e como já não ia ao oftalmo há anos, resolvi marcar uma consulta com um antigo médico meu, dos tempos de criança. Depois de passar pelo susto com meu pai doente no início do ano por não ter cuidado da saúde e hoje apresentar um quadro grave de uma doença, percebi que não sou mais criança e que estava na hora de colocar o check-up geral em dia para poder começar inteira o ano de 2012.

Mas como nem tudo são flores, eis que um exame de rotina para verificação do grau do meu astigmatismo e hipermetropia, que tenho desde menina, me traz surpresas nada agradáveis. Ao chegar ao consultório e realizar aqueles testes já conhecidos de muitos de ler letras e números à distância fui para o aparelhinho que mede a pressão intraocular. Depois da primeira medição percebi que o olhar do Dr. Domingos modificou. Ele pingou o colírio para dilatação da pupila e outro que logo ardeu meus olhos e me pôs novamente na máquina.

Depois da segunda medição logo começaram as baterias de perguntas. Ele queria saber se eu andava com dores de cabeça frequentes a ponto de confundi-las com enxaqueca, se tinha dores de estômago com quadro de náuseas e vômitos e sensação de pisca-pisca ou coloração ao olhar para uma luz direta ou sair do famoso “escuro-claro” e vice-versa. Percebi que algo de errado acontecia, mas prontamente respondi as perguntas dele.

Relatei a ele que desde meados de 2009, após um aborto espontâneo que tive, passei a ter quadros insuportáveis de enxaqueca e crises horríveis estomacais. As crises vinham acompanhadas de fortes dores no alto abdome e sensação de nauseamento e vômitos. Ficou tão ruim minha situação que minhas idas à emergência dos hospitais se tornaram rotina. Disse tudo o que eu havia passado e até minha perda imensa de peso no período de seis meses, onde passei do número 56 para 48 de roupagem.


Enquanto eu relatava isso ele corria para ligar outra máquina que ficava no canto mais escuro do consultório. Me fez sentar rapidamente ali e disse que eu sentiria um pequeno incômodo, mas que não seria nada dolorido. Abriu meus olhos com o auxílio de seus dedos e enfiou um aparelho em formato de lente de contato encostando no meu globo ocular. Foi super estranho.

Tornou a me levar para a cadeira onde fazemos o teste da leitura e acendeu tipo uma lanterninha em meus olhos. Logo depois fazia teste com dedos pelos cantos do meu rosto e imediatamente se dirigiu à sua mesa onde prescreveu uns exames de emergência. Foi novamente no canto escuro do consultório para pegar um colírio e voltou dizendo que era para eu pingar de 12 em 12 horas. Eu comecei a ficar nervosa, pois ele corria como doido e não me dizia nada.

Depois de uns minutos, enquanto ele tentava me explicar como usar o colírio, eu pisei firme no tom da palavra e perguntei o que estava ocorrendo. Ele disse que minha pressão intraocular estava no máximo que o aparelho de consultório poderia marcar, de 30.  E completou dizendo que isso, junto a todos os sintomas que eu vinha relatando a outros médicos sem achar um diagnóstico durante os três últimos anos, confirmou as suspeitas dele: que tinha quase 100% de certeza de que eu estava com glaucoma.

Meu mundo caiu. Literalmente falando. Eu, que fui a diversos médicos nos últimos três anos (gastros, endócrinos, cardios, clínicos gerais) e fiz diversos exames para descobrir o porquê das crises de vômitos, dores no estômago e de cabeça, e que não davam nenhum resultado diferente do normal, cheguei a um diagnóstico através de um exame ocular de rotina.

Passei os últimos anos fazendo exames de sangue, tomografias, endoscopia e outros mais a fim de descobrir o porquê meu corpo estava me atacando. Alguns dos médicos começaram a dizer que era coisa da minha cabeça, que eu estava traumatizada pela perda do meu bebê e que as minhas dores eram psicossomáticas. Cheguei a receber um diagnóstico de “dispepsia funcional”, que nada mais é que dores estomacais com vômitos ocasionados por crises de depressão.

Voltei para a terapia e nada. Parei de tomar medicamentos para outros problemas que tenho, para ver se alguns deles estavam atacando o estômago e nada. Continuei sofrendo e emagrecendo descontroladamente e ninguém sabia o porquê isso acontecia. Só ouvia “é da sua cabeça, faz terapia que passa”. E agora, quase três anos completos depois, em um exame de rotina no oftalmologista descubro que todos esses meus sintomas era de glaucoma.

Pergunto: como é que nenhum dos médicos que me atenderam esses 31 meses que venho sofrendo com isso pôde diagnosticar o glaucoma? Afinal, não é tão excepcional assim essa doença. Tudo bem que ela costuma ser silenciosa, mas existem sintomas sim que denunciam seu surgimento. Não é simplesmente sair mandando a pessoa tomar remedinho para passar a dor e enviá-la para casa ou ir procurar o terapeuta, como se ele fosse resolver todos os nossos problemas, que vai nos curar de alguma coisa.


O Glaucoma é o principal responsável pela cegueira entre adultos a partir dos 45 anos. Quando um oftalmologista desconfia que seu paciente está com a doença, ele leva em conta alguns aspectos, como estar com idade acima de 35 anos (o meu caso), ter a pressão intraocular alta e sofrer os seguintes sintomas desvinculados aos olhos:
  • Visão embaçada
  • Dor severa no olho
  • Dor de cabeça
  • Auréolas de arco-íris ao redor das luzes
  • Náusea e vômitos
Ao perceber que o paciente demonstra essas variações ele é submetido a exames específicos, como eu fui, para avaliar o quadro de avanço da doença e o quanto ela já afetou a visão. O meu médico me pediu para realizar os exames de campo de visão computadorizada e retinografia de ambos os olhos. Receitou um colírio, que arde muito ao aplicar, para ser usado duas vezes por dia até o retorno do resultado.

Fico então pensando: como é que nenhuns dos médicos que me atenderam notaram que tinha algo errado comigo? Como é que não perceberam que os sintomas, mesmo que em locais diferenciados e distantes, poderiam ter correlação a um só diagnóstico?

Agora, não adianta mais eu ficar remoendo o que passou. Me senti literalmente como os casos apresentados no programa Enigmas da Medicina do Discovery Home & Health, onde as pessoas passaram anos e anos com dores e ninguém descobria o que era, e um médico conseguia juntar as peças do quebra-cabeça anos e anos depois.

O pior é que como alguns dos relatos do programa citado, eu, como eles, comecei a me sentir como louca. Você tem a sensação de que está realmente surtando, porque sente dores físicas e todos dizem que é “coisa da sua cabeça”. Cheguei a ouvir que eu estava ficando hipocondríaca (logo eu que odeio ir a médicos).

Com isso eu aprendi que nós sabemos muito bem quando existe algo errado com nosso corpo e é direito nosso buscar a verdade e não achar que estamos malucos. Se você percebe que algo não está certo, corra atrás! É um direito seu saber o que está acontecendo com você. Melhor do que qualquer médico, você conhece seu corpo melhor do que ninguém. Tenha em mente que exames de rotina podem salvar sua vida e que muitas vezes aquela dor de cabeça que você considera boba, poder ser apenas a ponta de outras coisas ocorrendo dentro do seu corpo.

Cuide-se! Seu corpo é o bem mais precioso que existe. Não brinque achando que tudo vai passar ou use a frase ridículo do “morrer, enterra”. Lembre-se, que nem sempre estar doente quer dizer que você irá morrer, mas pior que isso é ficar inutilizável em uma cama vegetando, quando um simples check-up anual poderia ter salvado sua vida. Pense nisso!

Eu ainda estou abalada com a notícia que recebi hoje. Saber que posso estar com uma doença que em algumas décadas, ou anos, poderá me tirar a visão, é difícil de assimilar. O meu oftalmo falou que eu fui diagnosticada cedo, portanto, posso retardar a perda da visão total e controla os danos ao nervo óptico, ou seja, como descobri a tempo de um dano maior, posso retardar em até três décadas a perda total da visão e controlar a perda parcial ao longo dos anos. Mas é difícil de assimilar tudo isso. Ainda estou em processo de negação, diria assim. Assim que tiver notícias e resultados dos exames vou relatando por aqui.



2 comentários

Jô Angeℓ disse...

Ana, minha mãe tem glaucoma e usa dois colírios por dia, mesmo já tendo perdido a visão de um olho e enxergar cada vez menos no outro. Quando o médico disse a ela a primeira vez ela nem sabia direito sobre isso e não usou os colírios passados pelo médico direitinho,achou que a doença não era tão agressiva. Resultado: quando voltou ao oftalmologista por conta de uma conjuntivite após uns dois anos ou mais, já tinha perdido a visão do olho esquerdo. O que tenho a lhe dizer é: cuide-se. os colírios ardem muito e são desconfortáveis mas é o único jeito e tem que ser na hora certa, religiosamente.Só assim se retarda o mal. Força. Beijos. Jô Angel

Ana Magal disse...

Eu sei minha amiga jô. Tenho que cuidar de mim. Não só fisicamente como mentalmente. Estou passando por vários problemas pessoais que ainda contribuem para meu estado de espírito fique ruim. Estou tentando levar tudo na boa, mas é complicado receber uma notícia dessa. Se for olhar para o lado bom, pelo menos eu descobri no início. Veremos se isso fará alguma diferença.

Beijos

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